Friday, 12 January 2018

Desabafos

O tempo continua frio e incerto. Tão incerto como eu me sinto agora quanto aos meus desejos hoje. O cansaço parece dominar - me . As pernas , com um formigueiro parecendo pronunciar uma crise de espasmos, bem incomodativas e características do SPI, diagnosticado há uns anos e sem causa nem cura  ainda descobertas pela ciência. 
São milhares os passos que diariamente percorro dentro de casa , apesar de ser um apartamento, ainda que com espaço. Os anos, já vividos, pesam no corpo, por muito que tal seja esquecido pelos outros. 
O cansaço físico e mental são bem reais . A resistência de há muitos anos evaporou -se com o sol que teima em brincar às escondidas. 
Por vezes, dá sinal de vida mas é sol de pouca dura, como diria a minha mãe. É tremenda a saudade da minha mãe que me afoga nalguns momentos. Saudade da voz dela, sempre conciliadora, esquecendo - se de si própria para apoiar a família. Sempre disponível! Também estou cansada da disponibilidade com que tenho agido ao longo dos anos . Não arrependida mas cansada . 
O arrependimento não me invade. Todos os cuidados que tive e continuo a ter são consequência dos afectos que sinto , o que não significa  que não se tornem cansativos, porque as forças já não são as mesmas, porque as recompensas são nulas ou insignificantes , porque , porque, porque.... 
Talvez deseje dos outros o que não me podem dar... talvez queira o que não me podem oferecer, porque não tiveram , não têm ou simplesmente não são capazes de dar. 
Hoje, gostava de estar no meio do mar. Acordar com o nascer do sol no horizonte, sentar- me na esplanada do deck mais alto do navio, sentir o suave deslizar nas águas, ouvir a ondas embaterem no casco e procurar com o olhar movimentos de aves ou de barcos outros ao longe. 
Gostava de andar deambulando pelos corredores e pelos decks, deixando  as palavras soltas voarem no oceano, loucas e coloridas . Gostava de ir até um dos bares abertos, passear pelos balcões de self service, recolher frutas e sumos e café e sentar- me ali, de frente para o mar , lendo, escrevendo, ouvindo música ou apenas estender- me numa espreguiçadeira e saborear o momento . 
Gostava . 



Thursday, 11 January 2018

Sonho perdido ... Versão fotográfica


Sonho desfeito...

SONHOS

Os sonhos fazem parte integrante da condição humana.
Quem é que já não sonhou ao longo da vida?
Por vezes, acredito mesmo que não poderíamos viver sem a presença do sonho, trate-se daqueles que temos , enquanto dormimos , e para os quais procuramos significado, por tão estranhos que eles nos parecem, quer daqueles que construímos , peça a peça, tentando que se concretize um dia, quem sabe…
Há quem considere os sonhos produtos da imaginação, da fantasia, do devaneio até, mas também há quem os considere simples projectos cuja execução pode ser mais ou menos difícil, mas de algum modo viável , pelo que o sonho assume algo de muito belo e agradável que desejamos a todo o custo concretizar…
Um dos maiores problemas, se não o maior que temos de enfrentar é se a concretização do sonho depende de outros que não nós mesmos, os sonhadores, ou se o sonho que parecia partilhado por outros afinal era apenas o sonho de um.
Quando tal acontece, o sonho fica pela metade ou desfaz-se como a espuma das ondas ao alcançar a areia.
Normalmente, estes sonhos desfeitos deixam marcas bem fundas, mesmo que reconstruídos no silêncio de noites mal dormidas , tentando compreender o que falhou no projecto feito com tanto afecto e segurança, passo a passo, para que passo algum, em falso, fosse dado.
E foi isto que aconteceu com Maria.
Sempre, desde que se conhecia, gostara de casitas bem pequeninas, em madeira , no meio da natureza e rodeada por espaços grandes. Um sonho que desistira de concretizar, por variadas razões, entre as quais por fazer parte exclusivamente do seu imaginário.
E Maria foi caminhando nas estradas e vielas da vida sem que o sonho a incomodasse ou perturbasse , de alguma maneira as decisões das rotas que ia seguindo, com a família.
A dada altura , com os anos de vida a crescerem rapidamente, como se a avisassem que o tempo não volta para trás, reunidas algumas circunstâncias , eis que alguém da família recorda : agora podes fazer aqui a tua casita…
E o sonho , adormecido, voltou, cresceu, tornou-se real.
A casita, pequenina, rodeada de espaço, de flores, de crianças brincando no espaço , onde baloiços e trampolins e piscinas iam sendo colocadas á medida da idade e tamanho deles.
A casita continuava pequenina mas perto de uma casa grande onde crianças e pais viviam , deixando no ar risadas conjuntas, lanches divertidos, passeatas no campo e palavras e palavras…
Cresceram as flores, as árvores de fruto, as ervas que precisavamconstantemente de ser cortadas, o cão, tipo Husky, recolhido num verão distante , porque abandonado por desconhecidos perto da auto -estrada, tornou-se um amigo e companheiro, sem sequer se incomodar com os gatos e galinhas e patos que também vieram , por acréscimo, para aquele espaço que rodeava a casita , outrora um sonho, agora uma realidade concretizada.
E anos foram passando e árvores crescendo… e um outro sonho começou a ganhar forma….
A casita pequenina, cuidada com carinho , rodeada de flores seria o lar da Maria, num tempo futuro cada vez mais próximo, onde não faltaria a alegria de poder conviver sempre com as crianças , onde a palavra solidão não seria pronunciada, onde as risadas permaneceriam, mesmo quando não lhe apetecesse rir, onde o pôr -do-sol de cores vibrantes era uma hino à vida, vivida e por viver…
Tornara-se o sonho de quem percorre as estradas do mundo , sabendo que o ritmo das pernas menos ágeis não permanecerá o mesmo de hoje…
O sonho passara a ser um desejo veemente, uma aspiração de quem caminha para velho.
Mas o sonho deixou de ser comum a todos , ou foi substituído por outro sonho de um dos habitantes da casa grande.
Num ápice, o tempo mudou e a casita pequenina perdeu o encanto do afecto, a risada de crianças, as palavras e lanches e brincadeiras que a alimentavam.
Maria ficou sem sonho, sem risadas, sem palavras e palavras.
Deixou cair lágrimas pela face, arrumou as suas coisas , fotografou as flores, as ervas,
os espaços e mudou…
O sonho desfez-se… E Maria vai reconstruindo outros …



Tuesday, 10 October 2017

No coração do Alentejo, hesitações minhas....

Viemos para Beja, ontem. Uma viagem na programada, turisticamente falando. Uma viagem decidida no calor da confiança, num rasgo dê optimismo. Tinha acabado de sair de uma consulta, onde , como sempre, se falou dos cigarros, que tanto me acompanham , principalmente , em momentos menos agradáveis da vida. Fumar um cigarro permite - me controlar sentimentos de impotência perante algumas atitudes menos confortáveis. Sentar - me numa esplanada, tomar um café e fumar um cigarro ,olhando em redor, sem ver, tornou - se, desde há muito tempo, num acto de prazer capaz de acalmar a ansiedade  e calar palavras mais ou menos agressivas que sentia vontade de dizer... também  em momentos de reflexão intensa... um cigarro numa mão, a caneta na outra...
Apetece-me deixar de fumar ou melhor apetece-me deixar de ter vontade de fumar... assim disse ao médico e amigo com quem estava conversando.  E falou- me em Beja. Sem milagres. Sem conhecer pessoalmente mas por intermédio de fumadores compulsivos , que haviam deixado de fumar. 
Voltei para casa. Fui até à minha esplanada de todas as manhãs. Pedi o meu carioca de café , acendi o meu cigarreiro , olhei a estrada por onde transitavam os muitos carros da cidade e decidi ... vou deixar de fumar, sem stress... vou tentar Beja... farei parte dos 90% de ex-fumadores ou dos 10% que continuaram a fumar? Afinal, até gosto de viajar! 
Beja foi presença na minha vida durante anos... boas e más recordações já que nada na vida é imutável... boa altura de voltar à cidade alentejana, bem quente onde o meu neto viveu tão pequenino e o meu coração tão feliz com ele, chamando por mim naquela vizinha doce de criança.
E foi assim que voltei aqui. Com o  prazer de viajar, com a alegria que sempre sinto neste Alentejo único , no mundo, com o companheiro das minhas andanças de mais de 4 décadas, com dúvidas e certezas e incertezas ... 

Searas ...quadro decorando o Hotel

Praça da Saudade
Renque de palmeiras numa avenida 

Saturday, 2 September 2017

Saturday, 26 August 2017

Domingo de manhã

O título até nem é totalmente verdadeiro . É domingo, o ultimo de agosto, mas já é uma hora. A sirene tocou há pouco , recordando a todos que o dia vai a meio. O tempo está ameno, como aqueles dias de outono com sabor a verão ou Primavera, como queiram.
No café do costume, com a mesma paisagem na frente da mini esplanada onde me sento. Carros atravessam a estrada , de duas vias, divididas por um estreito passeio, repleto de arbustos em crescimento.
No céu azul, mesclado de nuvens, alguns rastos brancos dos aviões que se cruzam deixando ou chegando a Lisboa. Este céu é de passagem obrigatória.
Também devia ser obrigatório circular no céu cada período de 70 dias. Pelo menos, para mim.
Viajar por terras e mares é um prazer indescritível. Descobrir lugares, conhecidos apenas de mapas ou de descrições escritas e faladas feitas por outros ou imaginadas , simplesmente. Perder-nos em ruas e avenidas de cidades bem distintas das que habitualmente habitamos, tendo como referência um prédio ou outra construção qualquer que marcámos como sinal na nossa mente curiosa, satisfeita e receosa .Tudo mesclado numa amálgama de sentimentos que me fazem sentir viva.
Gosto de cruzar os céus e observar as nuvens com formas que se assemelham ao que a nossa imaginação deixar.
Gosto de cruzar os mares e sentir o movimento das ondas enquanto vou contemplando o infinito, vislumbrando sombras que tanto podem ser peixes como barcos ou mesmo ondas em movimento.
Quer nos céus, quer nos mares, a liberdade é o sentimento dominante. A imaginação percorre todos os caminhos abertos, as saudades, que também sinto de outros lugares e pessoas ficam bem aninhadas num cantinho, como que adormecidas, sem dor, suavemente.
Gosto de viajar. Faz- me sentir viva, com sonhos de criança e certezas de jovem, sem que o passar do tempo me assuste. Pelo contrário, aqui, parece que apenas aguardo que o tempo vá passando inexorável e lentamente.
Aqui, sentada, parece que vejo a vida passar como se fosse uma mera espectadora.

Wednesday, 9 August 2017

Vento, vento e mais vento

A vista é linda , com cores vibrantes, onduladas...Alguns barcos descansam da faina ... as muralhas da cidade protegem este pedaço de costa do vento que sopra de todos os lados, por vezes com rajadas mais fortes . Não é dança do vento, não. Também não é baile mandado. É dança de espíritos, talvez mal amados , mostrando aos infelizes mortais , amantes de Praia, que quem desenha a coreografia , é a natureza. 

O vento traz consigo o mau humor na exacta medida em que o sol nos reconcilia com alguma esperança ...