Saturday, 9 June 2018

Reflectindo ... no cantinho meu

O sol vai e vem
Fazendo-se caro
A chuva vai e vem
Fazendo-se barata 
A alegria vai e vem
Fazendo- se desejada
A tristeza vai e vem
Fazendo-se distraída

E eu 
Vou e venho
Por caminhos encantados,
E  sonhados 
Por mares imensos
E desconhecidos
Por montes e vales
E rios e riachos... 

E eu
Vou e venho
Por afectos sentidos
Perdidos,
Reencontrados
Por saudades imensas
De tempos idos,
Regressados, 
Mascarados 
Bem educados
Num tempo desconhecido 

De agora! 





Sunday, 3 June 2018

Tarde em Lisboa

Um almoço com gente que andou pela guerra pode parecer , a quem por lá não viveu ainda que por dois anos ou menos ou mais, momentos escusados de reviver tristezas e dores e lágrimas e raivas. Acredito que também eu, em alguns períodos da minha vida, tenha pensado assim. Mas o tempo.... ah... o tempo passando inexoravelmente por nós apazigua as dores de então e transporta-nos para outras dimensões de nós próprios.
Estas reuniões tornam- se momentos de paz, de reconciliação com o passado, de (re)viver momentos de violência com aqueles que a passaram connosco , de reencontrar episódios de sã camaradagem , de reconstrução de um passado que alicerçou os Homens que são hoje.
Foram momentos de dor e raiva, recordados hoje com pormenores a que então não prestaram muita atenção ou que fizeram por esquecer.
Passados quarenta anos ou mais, juntos reconhecem o valor da vida que conseguiram manter, da amizade desinteressada com que se ajudavam mutuamente, dos actos loucos que cometiam para esquecer o perigo que corriam e que hoje os fazem sorrir.
E as mulheres e familiares que não viveram em cenários de guerra mas acompanharam os sentimentos de revolta mais íntimos daqueles jovens de há tantos anos vão- se conhecendo, criando laços de amizade e solidariedade, que lhes permitem compreender atitudes dos companheiros muitas vezes difíceis de entender. São reuniões de Convivio, de amizade, quase terapêuticos para quem viveu momentos bem perigosos, com a Morte sempre à espreita.
A guerra deixou marcas muito profundas numa geração e num país que as gerações de hoje ignoram completamente. Mudaram os tempos, é certo, mas as manchas cinzentas, ainda que as tentei colorir hoje, permanecem e permanecerão enquanto estes homens e mulheres continuarem vivos. E hão- de permanecer para além deles, como factos da História de um Portugal governado por "abutres " que, como tão bem cantou Zeca Afonso, " comiam tudo então deixavam nada".



País do Sol da Meia-noite (4 - Alesund )

E Alesund foi o último Porto onde atracámos antes da chegada a Hamburgo. O Porto fica dentro da cidade que podemos avistar do barco . Saímos do barco como se de um autocarro e estamos no centro . Uma cidade lindíssima, acolhedora onde podemos caminhar durante horas . A cidade de que mais gostei , sem dúvida ! Gostava de lá voltar e andar de barco correndo todas as ilhas que fazem parte da cidade .
Uma cidade onde os prédios de ArteNova se impõem como se caminhássemos num museu ao ar livre . Uma cidade de Arre Nova ! Flores ornamentam algumas ruas e os Trolls, símbolos nórdicos estão por todo o lado , acompanhados sempre da bandeira norueguesa.




País do Sol da Meia Noite ( 3 - Tromsö e Trondheim) 

Chegámos a Tromsö, cerca das 13 horas. Uma paisagem fabulosa. Uma cidade encaixada em fiordes, com montanhas várias  salpicadas de neve. O sol estava meio escondido mas  a luz continuava feérica e o topo das montanhas reluzia com o brilho da neve branca , por vezes, ensolarada. Uma aragem fresca soprava mas nada que se comparasse ao vento frio sentido no Cabo Norte. Aliás, o clima mudava muito rapidamente. Do sol brilhante ao cinzento claro de nuvens amareladas com o sol por trás passava-se num ápice.A serenidade habita a Noruega. Não duvido que a calma nórdica está relacionada com o clima e a paisagem de "postal ilustrado". De tarde, saí pela cidade. Uma vista panorâmica com uma paragem na Catedral Ártica, símbolo da cidade. O Aquário Ártico - Polaria- foi  muito interessante, essencialmente pelas demonstrações ali presentes, ao vivo, permitem  ver as causas de poluição do planeta e dos mares, pondo em risco algumas espécies .

 E Trondheim foi a cidade seguinte que visitámos, no Dia Nacional da Noruega. Era dia de Festa Nacional, com desfiles e mais desfiles com famílias inteiras , dos avós aos bebés, usando fatos tradicionais. O trânsito era caótico o que impediu uma caminhada pelo centro da cidade mas a possibilidade de assistir ao modo genuíno de como este Dia Nacional é celebrado foi simplesmente encantador. O Museu ao Ar livre, onde encontramos a Noruega de há muitos anos, foi uma das visitas que mais nos entusiasmou, tal como o desfile que ali pudemos presenciar.


País do Sol da Meia Noite (2 Cabo Norte) 

A chegada a Hōnningsvag  foi simplesmente indescritível... a navegação era feita por entre os fiordes... a paisagem de um lado e doutro deslumbrava -nos enquanto o sol radioso insistia em permanecer no horizonte, bem brilhante, sem dar qualquer sinal de querer esconder-se.
A neve salpicava os montes e montanhas que íamos ladeando. O barco, gigante e imponente, insinuava-se por entre ilhas e ilhotas, rumo ao porto, pequeno demais para que pudesse atracar ali.
Ficou , ao largo, e foi de lancha que chegámos a Honningsvag, cidade pequena, cercada de montanhas e ponto de partida para o Cabo Norte.
E o Sol não se escondeu... e eu parecia hipnotizada pela cor, pelo brilho, pela luz que continuava bem intensa ,  contrastando com a brancura da neve e com o vento que nos fustigava , quase nos impedindo de chegar ao padrão assinalando o ponto mais a norte da Europa.
Regressámos ao Barco, cerca das 2 horas da manhã, com um sol radioso  que nos transportava para um meio- dia da nossa rotina.
As renas passeavam pelos montes, escavando buracos na neve, à procura de algo para comer.
As duas aldeias de pescadores , que visitámos, na Ilha de Mageroya, parecem lugares fantásticos, daquelas histórias de fadas e duendes  com que nos deliciávamos , em criança.
Não consigo imaginar como serão aqueles locais, hoje transitáveis e encantadores nos meses da Noite Polar...










Monday, 28 May 2018

Memória da cidade...


Cidade esquecida ? Não. 
Arrumadinha na gaveta das memórias para não perturbar o quotidiano vivido  bem longe. Sempre que volto a percorrer os caminhos  do liceu de anos e anos , são os tempos de menina que me habitam, de novo.
A familia , então bem grande porque as tias e os primos diariamente estavam em nossa casa ou nós em casa delas...hoje só uma prima continua por lá. As tias partiram na última mviagem  e os primos foram plantando raízes noutros lugares .
Os amigos, os colegas de liceu, dos passeios, das confidências juvenis,  das pequenas partidas nas aulas,  jovens de então que habitam para sempre em memória minha . E também em memória deles, certamente, uma vez que todos, tantos anos depois, continuamos a responder ao  apelo de um almoço de afectos. Alguns , bem queridos, já não almoçam connosco, nem  recordam as peripécias em que todos fomos actores mas estão presentes ali nas mesas do restaurante donde se avista a cidade.
Nesses momentos, prefiro pensar que a ausência deles se deveu apenas e somente a afazeres pessoais e / ou profissionais. 
Cidade esquecida? Não.
Cidade  renovada, reconstruída em memórias , em avenidas e ruas, em praças e bairros , onde antigo e moderno se misturam numa urbanidade   cada vez com mais gente de outros lugares.
Cidade esquecida? Não.
Cidade revivida , hoje , na Torre do Relógio, dominante na  cidade, nas ruas estreitas do Bairro do Castelo e do Miradouro, no Jardim do Paço, testemunha dos  passeios, de  namoros juvenis, do preconceito contra os vizinhos espanhóis visível nas estátuas dos Filipes, em tamanho menor, no fundo da escadaria dos Reis. 
Cidade de granito, dos bordados únicos, que são orgulho de quem os faz e ambicionados por quem nunca os aprendeu a fazer.
Cidade esquecida? Não.

Cidade minha, onde o ar tem cheiro e cor, onde  deambulo com prazer,onde me sinto EU. 


Tuesday, 22 May 2018

País do Sol da Meia Noite (1)




Era um sonho alimentado pelo encanto que o pôr-do-sol sempre me provocou. " O sol a esconder-se no mar", como sempre dizia aos meus filhotes e. Netos nos passeios em que os levava ao entardecer , sempre que estávamos perto do mar.
O mar , na sua imensidão incontrolável, de cores mutantes e sempre em movimentos ondulantes, encantatórios, mesmo que zangado, fascina-me desde que me conheço e posso escolher os meus caminhos. E aí, os Fiordes da Noruega, envoltos em verde e branco pela neve que sempre alberga nas montanhas muitas que habitam aquelas terras longínquas no Norte desta Europa tão maltratada.
E foi esta  a motivação que me levou a ir até lá num navio, o Maraviglia, cruzando mares e navegando pelos fiordes até Honningsvåg, donde partimos até ao Cabo Norte, percorrendo, na medida do possível, a Ilha de Mageroy, com as suas duas aldeias de pescadores e em cujo interior, a neve nunca se esvai, e em cinco minutos o sol radioso dá lugar ao nevoeiro mais cerrado, deixando as estradas, ladeadas de neve com alturas de três a cinco metros, escondidas, abertas apenas para aqueles que ali vivem e habituados aquele clima duro mas misterioso. Como será viver por ali durante a Noite Polar? Não o consigo imaginar, sequer.
A primeira paragem foi em Molde, onde um norueguês, contactado através das redes sociais, nos aguardava no seu táxi e nos proporcionou uma vista fabulosa daquela região que o viu nascer e onde vive há muitos anos. À medida quê percorríamos aquelas estradas , a natureza impunha-nos o seu fascínio, superando as expectativas algumas vezes tidas. A serenidade reinava. A paz vivia ali. Não é possível alimentar violência em locais com tamanha beleza. Nenhuma pintura supera a natureza .
À medida que o barco se aproximava era um sonho que eu sentia concretizar-se. Mas muito mais encantada havia de ficar. A viagem estava começando.